Discurso sobre a colonialidade (Aimé Césaire)

CÉSAIRE, Aimé. Discurso sobre a colonialidade. São Paulo: Veneta, 2020.

Aimé Cesaré (1913-2008) nasceu na Martinica, então colônia francesa. Oriundo de uma família de classe média baixa enfrentou dificuldades financeiras, mas conseguiu se destacar nos estudos, ganhando bolsa e ascendendo academicamente. Tornou-se militante político, escritor, poeta e professor.

“Discurso sobre o colonialismo” disseca a civilização europeia e ocidental, incapaz de resolver o “problema do proletariado” e o “problema colonial”. Em um texto curto e profundo, expõe a decadência ideológica burguesa e as barbaridades coloniais cometidas em nome da filosofa, da razão e da ciência. Publicado em 1950, pouco depois da derrota militar do nazismo, o marxista e negro Aimé Césaire afirma que o choque da burguesia não está nos crimes de Hitler contra a humanidade, mas sim no crime e na humilhação contra o homem branco. Uma barbárie que, “até então, havia sido aplicado apenas a povos não europeus”. Césaire é categórico: “No fundo do capitalismo, ansioso por sobreviver, há Hitler. No fundo do humanismo formal e da renúncia filosófica, há Hitler”.

A palavra “negritude” tem em Césaire sua origem, podendo ser também considerado um dos precursores do que hoje chamamos de decolonialidade. Sem usar estes termos, em “Discurso sobre o colonialismo” estão os elementos da crítica da colonialidade, a qual persiste para além da colonização histórica. A colonialidade rege as sociedades contemporâneas ocidentais, suas instituições e sujeitos, nas dimensões do ser, do saber e do poder.

A colonização significa a “coisificação” dos colonizados, ao desumanizá-los. É dessa desumanização que o empreendimento colonial se ergue e se “justifica”. Porém, o processo histórico e a construção dos sujeitos é dialético e relacional. É por isso que o colonizador, “ao acostumar-se a ver o outro como animal”, termina por “se transformar, ele próprio, em animal”.

Para Césaire a burguesia nos condena a uma sociedade cada vez mais hostil e bárbara, pois esta classe moribunda torna-se “um receptáculo para o qual fluem todas às águas sujas da história”.  Compreende que um mundo construído no “respeito pelos povos e pelas culturas” é o dever de uma revolução proletária. Como bom marxista, Aimé Césaire viveu em permanente tensão com as orientações do PCF, rompendo com o partido ainda na década de 1950.

Esta publicação, com belo projeto gráfico, é da editora Veneta. Além do texto do autor, vem com uma cronologia escrita por Rogério de Campos que mescla eventos históricos das colonizações, da vida e trajetória de Césaire e fatos relacionados aos surrealistas (linha marcante da editora). Muito bom!

Lucas Menezes Fonseca

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