Ensinando pensamento crítico (bell hooks)

HOOKS, bell. Ensinando pensamento crítico: sabedoria prática. São Paulo: elefante, 2020.

Em 32 “ensinamentos”, bell hooks apresenta um leque de reflexões práticas sobre o processo de ensino-aprendizagem. A autora estadunidense articula classe, gênero e raça a partir de sua experiência em sala de aula, não somente como professora, mas também em todo seu itinerário enquanto estudante.

A formação de uma “comunidade de aprendizagem” é o ponto central da prática educativa de bell hooks, fundamentada em uma concepção libertadora de educação e que encontra em Paulo Feire uma influência confessa. A comunidade de aprendizagem tem como objetivo garantir a “integridade” do processo de ensino-aprendizagem. O conceito de integridade, incontornável em sua concepção educativa, se constrói costurada a sua trajetória de vida, de quem vivenciou, enquanto estudante, as escolas racialmente segmentadas e o processo de fim delas nos EUA. Uma das poucas estudantes negras em uma escola de brancos e depois a professora negra ensinando a estudantes majoritariamente brancos.

A comunidade de aprendizagem, orientada por uma pedagogia engajada, demanda participação. Esta só pode se realizar em toda sua potencialidade dentro de uma “atmosfera de confiança e compromisso” e de “diálogo entre nossas diferenças”. A comunidade de aprendizagem de bell hooks não é uma comunidade homogênea, em que as diferenças são apagadas ou ignoradas. Trata-se de um processo de “esforço colaborativo”, alicerçada na crítica, no acolhimento e em desafios mútuos. Todas as vozes devem ser escutadas, mas isso não significa que todas devem ser escutadas a qualquer momento ou na mesma quantidade de tempo. A sociedade produz vozes que silenciam umas às outras e a educação, hegemonizada pela “cultura do dominador”, por vezes funciona como instrumento de colonização. Para bell hooks, os docentes devem tentar entender a “inteligência emocional” presente na sala de aula para não transformá-la em mais um ambiente desumanizador. Quebrar a “colonização da mente e da imaginação”, é ter uma postura de responsabilidade e cuidado sobre como nos relacionamos, sobre o que falamos e como falamos.

Subverter a lógica dominante é, portanto, criar um ambiente participativo que transita por distintas vozes e expressões, perspectivas e pontos de vista, sem por isso perder a criticidade frente à elas. O conhecimento não é uma aquisição individual, particular. A conversação, o compartilhamento de ideias, histórias e experiências é uma ferramenta fundamental para a nossa aprendizagem. Ao invés da confrontação e do conflito sem propósito, bell hooks defende um processo de produção de conhecimento estimulado pelas trocas mútuas de entendimento. Este direcionamento nos mantém abertos à crítica e ao novo, enquanto que o procedimento da confrontação sem propósito nos conduz ao encastelamento de posições e compreensões prefixadas. As ideias se renovam quando circulam pela conversa, pela troca, pela colaboração. Uma “educação democrática” deve rejeitar o processo educativo que se baseia na disputa e na competição. É também ouvindo o outro que nos conectamos a um mundo diverso, sendo a escuta um processo tão necessário à participação, quanto as intervenções faladas e escritas.

A prática pedagógica de bell hooks está conectada a sua perspectiva feminista e antirracista, sendo indissociável das lutas por justiça social. Aliar pensamento crítico com sabedoria prática é o convite para uma educação libertadora.

Lucas Menezes Fonseca

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