Sociabilidade e o (auto)ódio racial: sobre “O Olho mais azul” de Toni Morrison

SOCIABILIDADE E O (AUTO)ÓDIO RACIAL (sobre “O olho mais azul” de Toni Morrison)

Você ri da minha pele / Você ri do meu cabelo

Saravá, sou sarará, e assim quero sê-lo (quero sê-lo)

Já é tempo de sonhar / Superar o pesadelo […]

(Negra Li)

ToniMorisson2

Qual o impacto que sociabilidades, atravessadas e marcadas por violências racializadas em suas mais variadas dimensões, podem exercer sobre a subjetividade de sujeitos singulares e históricos? O romance O olho mais azul, da escritora afro-americana Toni Morrison, tem como pano de fundo este ponto. É sua obra de estreia, escrita em meados dos anos 1960 no clima das lutas por direitos políticos e civis da população negra norte-americana.

Toni Morrison nomeia as divisões do livro com as estações do ano. Em cada capítulo remontamos os fragmentos das vidas dos personagens que se cruzam em um contexto de diferentes camadas tendo o debate ético-racial, em sua multiplicidade, como a linha de costura. Nos fragmentos das vidas dos personagens Toni Morrison aborda temas como a invisibilidade e a solidão imposta a negritude em contraste com a “magia branca”, as relações de violência e afetividade, situações que se aproximam do debate sobre “colorismo”, entre outros temas.

Desde as primeiras páginas anuncia-se a existência de uma tragédia social sob a metáfora da natureza. Há três crianças. Uma delas, Pecola, ia ter um bebê. O pai do bebê era o pai de Pecola. As outras duas crianças, as irmãs Claudia e Frieda, plantam sementes de cravos-de-defunto. Era por Pecola e pelo bebê. As sementes não germinaram e culpavam-se por isso. O bebê morre. Claudia, que é quem narra a obra, refletia: “Jamais ocorreu a nenhuma das duas que a própria terra pudesse estar improdutiva” (MORRISON, 2009, p.15-16). A tragédia de Pecola é a de uma terra que não floresce para todos.

O Olho mais azul não é apenas sobre crianças. São sobre famílias e existências negras. Famílias que sob o olhar da narração de Claudia se “moviam nas bainhas da vida, lutando para consolidar nossa fraqueza e nos aguentar” (Id., 2019, p.27). Famílias com a dos Breedlove que não moravam em condições precárias “por estarem passando por dificuldades temporárias”. Viviam alojados precariamente “por serem pobres e negros, e ali permaneciam porque se achavam feios” (Ibid, p.48). Negritude e branquitude pode também ser a forma com que experienciamos classe, ensina Angela Davis.

Dentro da multiplicidade de temas, trilhado sob a perspectiva étnico-racial, a questão da beleza/feiura é a mais marcante e que a autora trabalha articulando aspectos objetivos – remontando o aspecto estrutural da sociedade estadunidense – com os elementos subjetivos, indissociáveis dos primeiros, da maneira como estes se internalizam nos sujeitos e inferem em suas práticas.

Breedlove é a família de Pecola: “Uma menina negra que deseja alçar-se para fora do fosso de sua negritude e ver o mundo com os olhos azuis” (Ibid., p.181). A família dos que “se achavam feios”, como se alguém tivesse vestido uma “capa de feiura” neles e eles não tiveram o que fazer: “Eles tinham olhado ao redor e não viram nada para contradizer a afirmação; na verdade, viram a confirmação em cada cartaz de rua, cada filme, cada olhar” (Ibid., p. 49).

Breedlove é a família do irmão de Pecole, o Sammy. Mas também de Cholly. Este fora criado sem pai, nem mãe e “não conseguia sequer compreender o que esse relacionamento devia ser” (Ibid., p.167). Cholly era pai da Pecola, que, certa vez perguntara as suas amigas: “como é que a gente faz alguém amar a gente?”. Cholly, como anunciado desde o princípio do livro não é só pai de Pecola, mas seu algoz. A perspectiva apresentada pela autora sob Cholly pode soar para muitos como uma “vitimização”, uma forma de “relativizar” sua brutalidade no trato com a esposa, do estupro da própria filha. Há uma sensível diferença. Na verdade, o que temos é a apresentação da construção de um ser complexo – produzido por diferentes fatores e a provocar uma ambiguidade de sentimentos. Cholly é humanizado, não para absolvê-lo, mas para compreendê-lo e contextualizá-lo.

“Os pedaços da vida de Cholly só poderiam ganhar coerência na cabeça de um músico. […] Somente um músico sentiria, saberia, sem mesmo saber que sabia, que Cholly estava livre. Perigosamente livre. Livre para sentir qualquer coisa – medo, culpa, vergonha, amor, pesar, pena. Livre para ser terno ou violento, para assobiar ou chorar.” (Ibid., p. 165-6)

Breedlove é família de Pauline, a sra. Breedlove. Em sua trajetória foi resignando-se, passara a encarrar o marido “como a uma coroa de espinhos, e os filhos como a uma cruz”. Desta feita, assumia “a plena responsabilidade e o reconhecimento de sua condição como arrimo de família e retornou à igreja” (Ibid., p.133). A despeito de ter “parado de tentar cuidar da própria casa”, tornara-se uma “empregada ideal”. Na casa de seus patrões, a Sr. Breedlove sentia usufruir “poder, elogios e luxo”. Até apelido, que não tivera em sua infância, ganhou e lá sua vida parecia adquirir sentido.

Os Breedlove é o exemplo de quanto uma sociedade pautada em uma supremacia racial branca pode ser destrutiva das subjetividades. De como isso mexe com as nossas formas de enxergar o mundo, de dar sentido as coisas e a vida. A mãe de Pecola, Pauline, por exemplo, repreende sua filha com vigor e rispidez, ao mesmo tempo em que é amorosa com a filha branca de sua patroa.

A maneira que enxergamos a nós e aos outros, tem a ver com as formas de sociabilidades historicamente estabelecidas. Em Olhares negros: raça e representação, a pensadora bell hooks (2019) desenvolve e defende a ideia de “amar a negritude” como uma condição indispensável de “resistência política contra as forças de dominação e morte que tomam as vidas negras” (Id., 2019, p.63). Seguramente, romper com os “olhares brancos” é condição indispensável para construirmos formas de sociabilidade que restituam subjetividades mutiladas pelo (auto)ódio racial.

“Sem uma forma de nomear a nossa dor, nós também não temos palavras para articular nosso prazer. De fato, uma tarefa fundamental dos pensadores negros críticos tem sido a luta para romper com os modelos hegemônicos de ver, pensar e ser que bloqueiam nossa capacidade de nos vermos em outra perspectiva, nos imaginarmos, nos descrevermos e nos inventarmos de modos que sejam libertadores.” (Ibid., p.32)

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Bibliografia

HOOKS, bell. Olhares negros: raça e representação. São Paulo: Editora Elefante, 2019.

MORRISON, Toni. O olho mais azul. São Paulo: Companhia das Letras, 2019.

 

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