Pelos “Becos da Memória” de Conceição Evaristo

PELOS “BECOS DA MEMÓRIA” DE CONCEIÇÃO EVARISTO

Tardiamente reconhecida como um dos grandes nomes da literatura brasileira, Conceição Evaristo nasceu em 1946 em Belo Horizonte (MG). Sua história é parte da história da humanidade, mas de uma humanidade que é cindida em classes e sistemas de opressão. Sua história é parte da humanidade negra, da humanidade negra e feminina. Uma humanidade marcada por uma subjetividade construída a partir de lugares, posições e relações concretas, porém assimétricas, atravessadas por questões de classe, raça, gênero, sexualidade, gerações, entre outras diferentes e entrelaçadas identidades.

Conceicao Evaristo 2

“Becos da Memória” fora escrita nos anos 1980, porém somente publicado pela primeira vez em 2006. Não porque assim quis, mas pelas barreiras e os obstáculos produzidos e reproduzidos por nossa sociabilidade racista e patriarcal, calcadas em uma formação social baseada em séculos de escravidão e um processo de miscigenação, em larga medida, na base da violação e objetificação do corpo de mulheres negras e indígenas. A história da humanidade de Conceição Evaristo não começou por aí, mas teve nesse processo uma virada com marcas profundas.

Como individualidade, sua história tem origem na antiga favela do “Pindura Saia”, na zona sul da capital mineira. Sua história teve como primeiro instrumento de trabalho a vassoura, passaporte para o ingresso em “casas de família” para trabalhar como doméstica. Da negação à voz, da privação da palavra e dos lugares de poder e decisão, a humanidade negra foi empurrada para o trabalho barato, embrutecedor e/ou serviçal. Todavia, abrindo “becos” pelo sistema, Conceição Evaristo ocupou também outros lugares, para reordená-los a partir da sua subjetividade negra e feminina. Que não é só sua, é de tantas Conceições e de tantas Marias. Virou escritora e professora de Literatura. Conceição Evaristo não é a vitória da meritocracia. Não porque não mereça ter o que conquistou. Conceição Evaristo é a vitória da resistência.

Fazemos nossa simplória apresentação e reflexão do seu primeiro romance, “Becos da memória”.

Da favela e de suas vidas e suas dores

“[…] nada do que está narrado em Becos da memória é verdade, nada que está narrado em Becos da memória é mentira.”

De acordo com a própria autora, sua obra em questão pode ser lida como “ficções da memória”, sendo um “texto ficcional con(fundindo) escrita e vida”. A literatura de Conceição Evaristo é definida por ela mesma como um exercício de “escrevivência”, onde a inspiração da obra vem da sua vivência como menina negra e moradora de uma favela.

O romance é narrado na perspectiva de quem gostava de colecionar selos e histórias, de quem sugere ser o alter rego da autora: Maria-Nova. Ela vai colecionando histórias, muitas delas surgem como “um amontoado de dores”. São muitas histórias a se ouvir e muitas histórias a se contar. Maria-Nova quer escrever sobre aquilo que ouve, escrever “a fala do seu povo” (p.177). A partir da oralidade, este poderoso recurso de povos e gerações, ela quer (re)escrever as histórias e a História, de todos e de si, do mundo e do seu lugar. Falar das dores, das lutas, das festas e dos amores.

“Escrevo como uma homenagem à Vó Rita, que dormia embolada com ela, a ela que nunca consegui ver plenamente, aos bêbados, às putas, aos malandros, às crianças vadias que habitam os becos da minha memória. Homenagem póstuma às lavadeiras que madrugam os varais com roupas ao sol. Às pernas cansadas, suadas, negras, aloiradas de poeira do campo aberto onde aconteciam os festivais de bola da favela. […] Homens, mulheres, crianças que se amontoaram dentro de mim, como amontoados eram os barracos de minha favela.” (p.17)

Com sua escrevivência, a autora no oferece uma profunda imersão no cotidiano de uma favela em uma grade cidade brasileira em meados das décadas de 1950/60. Cotidiano de sofrimento pelas dificuldades do presente e incertezas do futuro, mas também de momentos com verdadeiras trocas comunitárias e ajuda mútua, com todos se dividindo, doando e se doando, organizando e celebrando. Eram os “festivais da bola” e as festas juninas, eram as torneiras públicas e lavadeiras.

Em Becos da memória temos uma favela sob ameaça de despejo. Um lugar que carece dos equipamentos e serviços públicos, onde o Estado só aparece com a polícia e o oficial de justiça para autorizar que tratores derrubem vidas, dilacere a dignidade e promovam a histórica diáspora de negros e pobres. A favela “não era o paraíso, mas ninguém queria sair”, afinal: “O que faríamos em lugares tão distantes para onde estávamos sendo obrigados a ir?” (p.71). A miséria parecia que iria acompanhá-los para onde quer que fossem: “E gerações inteiras nasciam e cumpriam tempo de vida acostumadas à miséria, fazendo muitas das misérias razão de vida” (p.141).

Pindura Saia 1965 Fonte APCBH-ASCOM
Favela do “Pindura Saia”, 1965. Fonte: APCBH-ASCOM

Nos personagens de Conceição Evaristo temos tristeza e desilusão, mas também amor e fé em uma vida melhor. Temos histórias como a de Ditinha, empregada doméstica em família rica, com uma irmã que virou prostituta e tendo que carregar o fardo de cuidar sozinha de três filhos e de um pai paralítico. Este, talvez, encontrava na cachaça o seu alívio. Como tantos outros que bebiam o cansaço da vida. Mãe de Maria-Nova, Maria Joana era triste, mulher de poucas palavras, mas de muito amor e “na sua fragilidade enfrentava o mundo” (p.40). Faltava comida e conforto, “mas nunca faltava o aconchego do seu coração” (p.144).

Para Tio Totó, “a vida é uma perdedeira só, tamanho é o perder” (p.29). A sina de Tio Totó é ficar “são, salvo e sozinho”. Perdendo as esperanças, dizia que seu corpo pedia terra. Foi envelhecendo “não pelos anos passados, mas pelo tempo contado em dores que a vida ofertara para ele” (p.87). Antes de morar na cidade, na favela, morou e viveu no campo. O personagem representa os processos de êxodo camponês para as cidades na busca de uma vida melhor e os choques existentes entre o meio rural e urbano. A exemplo de sua fala: “-Aqui na capital carece da gente aprender tudo, da gente aprender um modo novo de viver… Na roça as casa são distantes umas das outras; aqui, a gente é vizinho um do outro, mesmo sem querer ser.” (p.89).

Negro Alírio “era um operário, um construtor da vida” (p.54). Assim como Tio Totó, veio do interior e lá enfrentou o Coronel e seus capangas. Quando aprendeu a ler, sua vida mudou, mas queria também poder ajudar a mudar a de todos: “A leitura veio aguçar-lhe a observação. E da observação à descoberta, da descoberta a análise, da análise à ação.” (p.54). Vai discutir sobre sindicato, liga camponesa e reforma agrária. Para Negro Alírio, era necessário ler o escrito e o não escrito, “era preciso que todos aprendessem a ler a realidade, o modo de vida em que todos viviam.” (p.95). Na favela, todos gostavam dele. Do seu ânimo e da sua esperança, das reflexões que provocava. Porém, difícil contagiar em meio ao desamparo do presente e a desilusão do futuro.

Menção necessária ainda ao Bondade e a Vó Rita. O primeiro, “não morava em lugar algum, a não ser no coração de todos.” (p. 178). A segunda era a parteira da favela e o seu amor desarmava a todos. No coração de Vó Rita cabia a humanidade inteira. Ela será o nó que une todos e todas, em suas lágrimas e em seus sorrisos.

Consciência negra e feminista forjada a ferro e fogo

Um dos temas e reflexões mais marcantes do romance é o legado escravista da sociedade brasileira e sua consequente implicação na condição de negros e negras: “[…] o que doía mesmo em Maria-Nova era ver que tudo se repetia, um pouco diferente, mas, no fundo, a miséria era a mesma. O seu povo, os oprimidos, os miseráveis; em todas as histórias, quase nunca eram os vencedores, e sim, quase sempre, os vencidos. A ferida dos do lado de cá sempre ardia, doía e sangrava muito” (p.63).

Conceição Evaristo não parte de uma posição essencialista, de um reducionismo que mecanicamente atribui valores e comportamentos a condição social: “Bondade conhecia todas as misérias e grandezas da favela. Ele sabia que há pobres que são capazes de dividir, de dar o pouco que têm e há pobres mais egoístas em suas misérias do que os ricos na fartura deles” (p.35). De forma similar, é a relação e a construção da identidade negra. Em uma sala de aula majoritariamente formada por brancos e brancas, Maria-Nova não encontra a simpatia e a atenção de sua única colega negra ao tratar da escravidão e o seu legado. A escravidão destruiu também laços e identidades. Sua colega não tinha o mesmo sentimento de pertencimento, talvez não se percebesse, assim como Maria-Nova, como parte de uma humanidade espoliada. A consciência de classe e de negritude é um processo, envolve contradições e não é materialmente dada. Assim como os direitos, a consciência se conquista.

Assim como Negro Alírio, que aguçara suas reflexões com a leitura, Maria-Nova ampliara os horizontes de suas reflexões unindo estudo e vivência. Para além do imediato da dureza da vida, enxergava a casa-grande no bairro nobre vizinho e a senzala na favela. Em uma aula sobre a “libertação dos escravos”, Maria-Nova, sempre questionadora, é arguida pela professora sobre o tema.

“[…] levantou-se dizendo que, sobre escravos e libertação, ela teria para contar muitas vidas. […] Tinha para contar sobre uma senzala de que, hoje, seus moradores não estava, libertos, pois não tinham nenhuma condição de vida. […] Eram muitas as histórias, nascidas de uma outra História que trazia vários fatos encadeados, consequentes, apesar de muitas vezes distantes no tempo e no espaço. Pensou em Tito Totó. Isto era o que a professora chamava de homem livre?” (p.151).

Além do debate racial, a condição da mulher atravessa a narrativa. Mulheres vulneráveis à violência sexual e doméstica, mas que também rompiam barreiras e assumiam às rédeas de controle sobre seu corpo e seus desejos. Mulheres como Dora, que desde cedo deixou “a passividade da mulher que só recebe a mão do homem sobre si e começou a vasculhar o corpo dos homens” (p.93). Para ela a maternidade não era uma condição de ser mulher. Não queria filhos, só o prazer: “Filho quase sempre vem sem querer. E a mulher carrega tudo. Carrega a barriga e as dificuldades” (p.94). Ou ainda da “menina-virgem”, refutando seu namorado e a naturalização da promiscuidade masculina: “Conversa de homem para dominar mulher! Pensa que mulher também não gosta, também não quer? Mulher vive abafando a vontade, os desejos, principalmente se moça virgem como eu!” (p.22). De todas elas, a mais impactante: Vó Rita. Junta a tantas outras, chefes de família e de si, que davam vida e alento na favela.

Caminhar pelos becos da memória de Conceição Evaristo é transitar por uma história que clama por ser (re)escrita, pois, para Maria-Nova, “a vida não podia se gastar em miséria e na miséria” (p.160). É preciso “viver do viver” para não “morrer de não viver”.

Lucas Menezes Fonseca

Bibliografia:

EVARISTO, Conceição. Becos da memória. Rio de Janeiro: Pallas, 2017.

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