A “gente pobre” de Dostoiévski

Fiodor-Dostoyevski-1821-1881
O jovem F. Dostoiévski

A “GENTE POBRE” DE DOSTOIÉVSKI

Gente Pobre de Fiódor Dostoiévski, escrito em 1845 e publicado no ano seguinte, são as boas-vindas deste aclamado escritor russo no mundo das letras. É a apresentação de suas credenciais e recursos literários que o tornaram um dos maiores da literatura mundial.

A obra é no formato de um romance epistolar, com trocas de cartas de seus protagonistas: o senhor Makar Diévuchkin e a jovem Varvara Aliêksiêievna. Embora seus diálogos sejam por meio de correspondência, os dois moram próximos, em uma mesma vila na cidade de São Petersburgo. Em suas cartas solicitam visitas mútuas e citam encontros em missas de domingo. Funcionário público de baixa patente (“copista” de documentos), Makar Diévuchkin vive de aluguel em lugar improvisado, sente-se ora invisível ora desratado, veste-se “maltrapilho” e toma gosto pela escrita. Varvara Aliêksiêievna, carregando dramas da adolescência, vive sob a dependência de uma aristocrata, trabalha como costureira e queixa-se bastante de seu estado de saúde.

Compartilham entre si privações materiais de uma vida simples e uma relação de afeto onde o autor deixa em suspenso suas origens e razões. A manifestação dessa relação se processa no carinho que um nutre pelo outro através do desprendimento de seus parcos recursos financeiros em prol de auxílios e benefícios mútuos. As privações materiais são preenchidas com solidariedade e empatia, mas não somente entre eles. Há pelo menos duas passagens de pura compaixão frente aos sofrimentos alheios, expressas pelo personagem Makar. Uma delas ao encontrar uma criança mendigando e outra ao sofrer junto com uma família sob ameaça de despejo. Momentos em que o personagem transborda angústia dada as suas poucas possibilidades de agir diante da miséria e em meio a miséria.

A obra é temperada com referências e comentários sobre a literatura, não somente, mas em especial, a russa. Aqueles que são conhecedores da produção literária deste país continental (não é o meu caso), poderão captar melhor as várias referências e citações de autores clássicos da época de Dostoiévski, a exemplo de Gogol em “O capote” que é bastante comentado (e criticado). Em suas cartas Makar Diévuchkin e Varvara Aliêksiêievna demonstram trocar livros e fazem comentários sobre seus conteúdos. Em um desses momentos, o “copista” relata a sua estimada “Várienka” o quanto a “literatura é boa”, profunda e de como ela “edifica e fortalece o coração das pessoas” (p. 74). Ele próprio seria um exemplo disso. Através de seu personagem, Dostoiévski parece também expor sua compreensão a respeito das características e potenciais da linguagem literária, quando afirma: “A literatura é um quadro, ou seja, em certo sentido um quadro e um espelho; é a expressão da paixão, uma crítica tão fina, um ensinamento edificante e um documento” (p. 74).

Como não poderia deixar de ser, tratando-se de Dostoiévski, as reflexões de seus personagens estão carregadas de observações e posições sobre a sociedade e o conjunto das relações humanas. Destacamos a caracterização daqueles que dão nome ao livro, através da exposição de Makar Diévuchkin, ele próprio, imerso em sua vivência de “gente pobre”.  Seriam as condições sociais e materiais determinantes (não necessariamente deterministas!) para marcar as diferentes percepções sobre o mundo? Elas nos inclinariam a determinados olhares e pontos de vistas? O velho “copista” reflete.

“Gente pobre é caprichosa – e é assim por disposição da natureza. Mesmo antes eu o sentia, e agora comecei a sentir ainda mais. Ele, o homem pobre, é exigente; até para esse mundo de Deus ele tem outra maneira de olhar, olha de soslaio para cada transeunte, lança a seu redor um olhar confuso e fica atento a cada palavra que ouve – não é dele que estão falando ali, diz? O que estão comentando, como pode ser tão feioso? o que é que ele, precisamente, sente? e, por exemplo, como será ele desse ponto de vista, como será daquele ponto de vista? E todo mundo sabe, Várienka, que uma pessoa pobre é pior que um trapo e não é digna de nenhum respeito da parte de ninguém, seja lá o que for que escrevam! eles mesmos, esses escrevinhadores, podem escrever o que for! – para o pobre vai ficar tudo como sempre foi! E por que vai ficar na mesma? Porque num homem pobre, na opinião deles, tudo deve estar virado do avesso; porque ele não deve ter nada de secreto, nenhuma vaidade que seja, de jeito nenhum!” (2009, p. 104)

Acostumado ao destrato, onde para o homem pobre “tudo deve estar virado do avesso”, não podendo “ter nada de secreto, nenhuma vaidade que seja”, Makar vai expondo, em cartas à sua jovem querida, as conclusões de quem teve uma vida de humilhações. Conciso de sua condição social, Makar não aponta exatamente uma possibilidade de redenção. O seu pessimismo nesse ponto, com doses de fatalismo, não consegue superar a ideia de que “qualquer condição que caiba ao homem é determinada pelo Todo Poderoso” (p. 92). Funcionário público de “baixo escalão”, sofreu e sofria com o peso de uma sociedade (russa) ainda aristocrática. A marca de sociedades de firme estratificação é construir um ambiente cultural e ideológico naturalizante frente às posições econômicas e sociais. Uma dominação, de verniz ideológica, incorpora na estrutura social determinando lugares permitidos a uns e outros. A pobreza, tantas vezes reduzida aos seus aspectos econômicos e materiais, amplia-se em seus efeitos. O cotidiano de humilhações de seu personagem o fazia resignar-se, acolher-se em uma condição de subalternidade que ultrapassava a simples condição econômica.

“Eles, os meus detratores diziam que até mesmo o meu aspecto era indecente, e me desprezavam, então, passei a me desprezar também; diziam que eu era um bronco, e eu achava mesmo que era um bronco […] ao me sentir perseguido pelo destino, humilhado por ele, entreguei-me à negação de minha própria dignidade, estava destroçado da minha pobreza, perdi até o ânimo.” (p. 128)

Apesar da descrença quanto ao seu destino, os laços com Varvara Aliêksiêievna são os que lhe dão sentido a vida, assim como faz a própria literatura. Desta forma, mesmo sem ser “brilhante em coisa alguma”, mesmo sem ter “polimento”, sente-se um homem por coração e sentimentos. Da solidariedade e compaixão exposta da “gente pobre”, teríamos o oposto na “gente rica”. A incapacidade de olhar o outro como um igual e sentir-se como parte de seu sofrimento, faz do rico o antípoda do pobre: “[…] gente rica não gosta de ouvir os pobres se queixando de sua má sorte – dizem que incomodam, que são impertinentes! A pobreza é sempre impertinente mesmo – talvez porque seus gemidos famintos lhe perturbem o sono!” (p. 138)

Colocar qualificações avessas entre pobres e ricos pode soar naturalizante, de modo a atribuir comportamentos, atitudes e pensamentos como inatos a condição de pobreza ou riqueza. Contudo, se não perdermos a dimensão social que aduba, cultiva e mobiliza comportamentos, atitudes e pensamentos, podemos nos aproximar de uma compreensão mais totalizante da realidade e, assim, (re)agrupar duas faces de uma mesma produção histórica-social. Talvez assim, possamos extrair lições de que das dificuldades e penúrias da vida, devemos buscar o apoio e a solidariedade mútua. Quem sabe assim o sono deixe de ser perturbado e a vida possa ser um campo a se extrair vivos sonhos, com a beleza e a profundidade da literatura de Dostoiévski.

Lucas Menezes Fonseca / fevereiro, 2018

Bibliografia:
DOSTOIÉVSKI, Fiódor. Gente pobre. São Paulo: Editora 34, 2009.

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